(...) Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros da infância.
Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal
vestígios dos meninos que fomos (...)
(Manoel de Barros)
Na minha cidade, nos domingos de tarde, as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas.
Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta, a campainha desatada,
o aro enfeitado de laranjas: 'Eh bobagem!'
Daqui a muito progresso tecno-ilógico, quando for impossível detectar o domingo pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas, em meu país de memória e sentimento, basta fechar os olhos:
é domingo, é domingo, é domingo.
(Adélia Prado)