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31 de julho de 2011

O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.

(Adélia Prado)

Abro uma antiga mala de velharias e lá encontro minha máscara de esgrima. Emocionante o momento em que púnhamos a máscara – tela tão fina – e nos enfrentávamos mascarados, sem feições. A túnica branca com o coração em relevo no lado esquerdo do peito,
‘olha esse alvo sem defesa, menina, defenda esse alvo!’ – advertia o professor 
e eu me confundia e o florete do adversário tocava reto no meu coração exposto.

(Lygia Fagundes Telles)

28 de maio de 2011

Menino Jesus de Praga

Desejo, como quem sente fome ou sede,
um caminho de areia margeado de boninas,
onde só cabem a bicicleta e seu dono.
Desejo, com uma funda saudade
de homem ficado órfão pequenino,
um regaço e o acalanto, a amorosa tenaz de uns dedos
para um forte carinho em minha nuca.
Brotam os matinhos depois da chuva,
brotam os desejos do corpo.
Na alma, o querer de um mundo tão pequeno
como o que tem nas mãos o Menino Jesus de Praga.

(Adélia Prado)

2 de maio de 2011

“Um dia, apanhando goiabas com a menina,
Ela abaixou o galho e disse pro ar
- inconsciente de que me ensinava –
‘goiaba é uma fruta abençoada’.
Seu movimento e rosto iluminados
Agitaram no ar poeira e Espírito:
O Reino é dentro de nós,
Deus nos habita.
Não há como escapar à fome da alegria!”

(Adélia Prado)

29 de abril de 2011


A experiência amorosa exige sacrifício.
Não se ama para ser recompensado.
O amor é sua própria recompensa.
Não resisto em citar Drummond falando da poesia coisa parecida:
“Poesia, o perfume que exalas é tua justificação”.
Não há amor fácil, mas todo amor é maravilha, saúde,
“remédio contra a loucura”, coisa que Guimarães Rosa ensinou.
É a experiência humana mais exigente.
Não é contrato, troca de favores, investimento,
é entrega  e compromisso..
Do “sacrifício” de amar nasce a mais perfeita alegria.
Ninguém faz cara feia quando se sacrifica por amor.
Não se trata de anulação, subserviência de quem ama,
trata-se da morte do ego, tarefa a ser feita até o último suspiro.

(Adélia prado)

16 de abril de 2011

Da nossa velha infância...

(...) Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros da infância. 
Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal 
vestígios dos meninos que fomos (...)

(Manoel de Barros)
Na minha cidade, nos domingos de tarde, as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas.
Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta, a campainha desatada,
 o aro enfeitado de laranjas: 'Eh bobagem!'
Daqui a muito progresso tecno-ilógico, quando for impossível detectar o domingo pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas, em meu país de memória e sentimento, basta fechar os olhos:
é domingo, é domingo, é domingo.


(Adélia Prado)

1 de abril de 2011

é melhor ser alegre que ser triste...

Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
(Adélia Prado)


Se todos fossem ficando tristes, mais tristes,
 todos se acabavam em ruindade (...).
Alegria tinha que ser chamada à força.
Era preciso chamar a alegria,
 como se chama a chuva, na desgraça ou numa seca demorada.

(João Guimarães Rosa)